Terceiras Impressões

POEMA EM LINHA RETA – ÁLVARO DE CAMPOS

UMA CRÍTICA À HIPOCRISIA

Abro a categoria “Poemas“, onde teremos algumas impressões sobre textos que me marcaram de alguma forma. A intenção não é destrinchar o conteúdo, mas sim compartilhar, para que mais pessoas possam conhecer, apreciar e criar suas próprias impressões.

Para quem não sabe, o poeta português Fernando Pessoa criou heterônimos — personagens inventados por um autor para assinar obras com estilos literários diferentes —, e um deles é Álvaro de Campos, que manifestou fases poéticas diferentes ao longo da sua obra. Campos é revoltado, crítico e faz a apologia da velocidade e da vida moderna, com uma linguagem livre e radical¹.

Poema em linha reta é um de meus poemas preferidos porque é perceptivo e sarcástico ao evidenciar as imperfeições  da sociedade da época, e ainda assim é inquietantemente atual. Por vezes me sinto como o eu lírico do texto — um mero mortal, porco, vil, sujo —, em meio a tantos semideuses, que não admitem falhas ou qualquer deficiência; elas são simplesmente ignoradas, como se não existissem.

Reconheço que eu mesma tive meus momentos de “campeã em tudo” no passado, mas com o amadurecimento veio a percepção de que não precisava provar nada a ninguém e que as aparências podem até enganar, mas não por muito tempo.

 

POEMA EM LINHA RETA – ÁLVARO DE CAMPOS

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Já conhecia o poema? 
Compartilhe suas impressões! 🙂
  • Carla A.

    Oi, Raquel!
    Acho impressionante como o tempo passa e certas coisas continuam atuais. Lendo esse poema e encaixando no mundo de hoje, é impossível não lembrar das redes sociais. Nelas todo mundo é feliz, bem sucedido, se diverte o tempo todo, frequenta os lugares mais legais e viaja para os locais mais bonitos. Quem acredita que as fotos postadas mostram a realidade completa da vida de alguém, se sente frustrado por não ser igual.

    Beijos, Entre Aspas

    • Sim, exatamente. As redes sociais viraram parâmetro para medir felicidade, infelizmente. =/

  • Catrine Vieira

    OOi!
    Não conhecia o poema, mas gostei bastante. Achei bastante reflexivo, é fácil fazer comparações com a sociedade atual.
    Achei super a categorial e o fato de tê-la abrido para compartilhar, fazer com que mais pessoas conheçam.
    Beijoos!

  • Camila de Moraes

    Olá!
    Adorei o poema e nunca tinha lido. Concordo com tantas coisas que li. O tempo passa, mas algumas coisas ainda perduram né.
    Espero poder ler mais desse autor aqui no teu blog.

    Beijos!

    Camila de Moraes – Blog Book Obsession.

  • Alessandra Tapias

    Não conhecia este poema 🙁 Mas ainda bem que o conheci aqui ♥
    Lindo!!
    Amei muito e serviu demais para o dia de hoje!!

    Bhjs

  • Eu gosto muito dos poemas de Fernando Pessoa e embora eu conheça o Álvaro de Campos eu ainda não conhecia esse poema. Gostei de conhecê-lo e gostei da nova coluna (categoria) do blog.

  • Morgana Brunner

    Ah que maravilha esse poema gene, fiquei apaixonada e tão feliz de ver que tu trouxeste algo assim em seu blog, está de parabéns! <3
    Beijinhos da Morgs!

  • Angélica Felix Lima

    Oi, tudo bem?
    Não conhecia o Alvaro de Campos e gostei bastante do poema!
    Mal posso esperar para acompanhar os próximos posts.
    Bjs

  • Nina

    Oi, tudo bem?

    Então, tenho estado cada vez mais apaixonada por poesia, mas confesso que Fernando Pessoa não é, nem de longe, um dos meus poetas mais lidos/queridos. Na verdade, aspiro muito mais mulheres escritoras e, ultimamente, tenho lido muitas estrangeiras que são sensacionais, no idioma inglês (embora nenhuma seja americana/britânica). Por ora, só consigo citar dois poetas que gosto bastante: Mario Quintana e Carlos Drummond Andrade (Poema de sete faces é um dos poemas da minha vida <3).

    Conheço Poema em linha reta, mas ele não me causa quase nada, talvez porque eu não tenha muita empatia pelo autor.

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

  • LILIAN FARIAS

    Oi
    Poema em linha reta é perfeito, você já viu o Osmar Prado recitando? E a Maria Bethânia recitando o Pessoa, eu choro.

    • Sim! Tem também um vídeo do Abujamra recitando esse poema! 🙂

  • Eliziane Dias

    Que coisinha mais perfeita e linda! Meu Deus! Não conhecia essa do Fernando, ou do Álvaro rsrs Mas admiro bastante os dois. kkk Sou suspeita para falar de poesias. Amo demais! Poesia é vida!
    Esse poema me fez relembrar uma música pela qual fiquei apaixonada que é uma música de uma cantora chamada Flaira Ferro que se chama: “Eu quero me curar de mim”. Ouça! Você vai gostar demais e concordar comigo que essa poesia tem tudo a ver com a música. Que pra mim se tornou um hino.
    Também amei a forma como você falou sobre o poema e a sua iniciativa em trazer textos que você gosta para o seu blog. Sempre quis fazer isso também. Sucesso!

  • O pseudônimo de Álvaro campos entrou na minha vida na época da escola, e como sempre gostei de poesia, acabei gostando dos textos dele. Eu não estou lembrada deste, pois faz muitos anos que não leio algo dele, mas gostei de ler agora.
    Bjs, Rose

  • Daniela Souza

    Oi.

    Já conhecia o Alvaro de Campos pelo nome, porém, nunca li nenhum poema dele. Faz muito tempo que não paro para ler pormas, quando estudava lia vários, mas agora, parei um pouco. Vou procurar depois mais poemas dele para ler.

  • Eu já conhecia, pois estudei na universidade. Esse heterônimo do Fernando Pessoa é o mais conhecido, eu acho. Ma eu gosto mais do Ricardo Reis, por ter mais uma espírito carpe diem.

    Beijos!

  • LITERABOOK

    Olá, tudo bem? Não conhecia o Alvaro Campos, até porque não sou muito de ler poemas, mas é um gênero que aos poucos estou tentando abrir as portas. Gostei bastante que agora teremos no blog a categoria poemas. Ficarei de olho <3
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com

  • Bruno Marukesu

    Oi, Raquel ^^
    Fico feliz em dizer que os meus amigos todos tem falhas e aqueles que não admitem acabam demonstrando através de seus atos. Não tem dessa de que a pessoa é perfeita, um príncipe, entre uma conversa fiada jogada fora na parada de ônibus descobrimos o quanto o humano pode ser falho e sempre será, que é algo que precisamos para poder evoluir e tentar deixar de ser trouxa.
    Gostei bastante do poema mesmo não curtido mais tal tipo de escrita, deixo ela para as musicas. 😀
    Bjs

  • reissdayane

    Olá! Sempre gostei de frase ou trecho filosófico e poético. Mas poemas e poesias em si não me chamava muito atenção, acho que por que tinha mais na escola e não era tão interessante lá. Mas cada vez mais estou me encantando por poemas e poesias. Adorei conhecer esse! Beijos’

  • Carolina Ramires

    Olá!
    Sabia que esse heterônimo se tratava de Fernando Pessoa, mas nunca tinha lido o poema por não curtir muito o gênero. Mas adorei conhecer esse, com certeza nos mostra toda a genialidade do autor!
    Beijos.

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