Terceiras Impressões

O RETRATO DE DORIAN GRAY

HEDONISMO E EGOLATRIA PARA DAR E VENDER

Adotar a prática de reler alguns livros em diferentes fases da vida é extremamente proveitoso: dessa vez, resolvi revisitar “O retrato de Dorian Gray” e novas emoções e impressões se manisfestaram, assim como o conhecimento mais aprofundado de alguns princípios filosóficos, que fizeram muitas passagens terem muito mais sentido para mim do que nas leituras anteriores.

O Retrato de Dorian Gray
Oscar Wilde – 1891
Editora Martin Claret – edição 2014
Páginas: 254

Sinopse:  O jovem e belo Dorian Gray é o tema de um retrato de corpo inteiro em óleo de Basil Hallward, um artista que está impressionado e encantado com a beleza de Dorian; ele acredita que a beleza de Dorian é responsável pela nova modalidade em sua arte como pintor. Através de Basil, Dorian conhece Lord Henry Wotton, e ele logo se encanta com a visão de mundo do aristocrata: que a beleza e a satisfação sensual são as únicas coisas que valem a pena perseguir na vida. Entendendo que sua beleza irá eventualmente desaparecer, Dorian expressa o desejo de “vender” sua alma, para garantir que o retrato, em vez dele, envelheça e desapareça. O desejo é concedido, e Dorian persegue uma vida libertina de experiências variadas e amorais; enquanto isso, seu retrato envelhece e regista todos os pecados que corrompem sua alma.

“Meu caro, não há mulher alguma que seja um gênio. As mulheres pertencem ao sexo de ornamento. Nunca têm nada para dizer, mas dizem-no de uma maneira encantadora”.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES: Meu primeiro contato com a história foi na pré-adolescência, onde li uma versão muito enxugada e direcionada à essa faixa-etária. Tempos depois, quando estava com quinze anos, li a versão mais conhecida, e apesar de gostar da história, foi uma leitura um pouco sofrida e maçante; obviamente, não aproveitei tudo o que a obra poderia oferecer.

Comprei essa edição que apresento, por um preço bem camarada no Submarino. É um livro pequeno, simples, daqueles “tipo coletânea de clássicos”, mas eu gostei da capa e achei que esse Dorian Gray da ilustração lembra o Jude Law (que por acaso interpretou Bosie no filme Wilde, de 1997). Risos.

SEGUNDAS IMPRESSÕES: Como já me era familiar, dessa vez eu atentei para a escrita (ainda conseguimos avaliá-la, mesmo na tradução), a psicologia, filosofia e História nela inseridas.

Um ponto negativo dessa edição é a falta de notas de rodapé: não há tradução dos trechos de poemas e frases em outros idiomas. As notas são essenciais para uma imersão adequada à esta obra, principalmente se você não conhece muito sobre a vida do autor, a sociedade vitoriana, e se não possui familiaridade com o conteúdo filosófico apresentado. Também não possui o famoso prefácio escrito por Wilde, e sim o texto de uma doutora em Linguística Teórica e Descritiva, que apresenta os retratos psicológicos encontrados no livro. Por isso, antes de iniciar a leitura dessa edição, é interessante fazer uma pequena lição de casa para criar intimidade com os termos e obras que inspiraram “O retrato de Dorian Gray“, como “A rebours“, de Joris-Karl Huysmans, que seria o livro amarelo, com o qual Henry presenteia Dorian, ou mesmo ShakespeareFausto e a lenda de Narciso.

Às vezes me perdia na leitura; não é exatamente fácil. Algumas ideias são tão bem elaboradas, subversivas e outras tão contraditórias, que tinha que voltar alguns parágrafos para não perder o fio da meada. Também, por diversas vezes, precisei respirar fundo quando os diálogos de desprezo pela mulher e valorização de si mesmo apareciam. Ou seja, praticamente o livro todo.

TERCEIRAS IMPRESSÕES: Uma crítica extremamente atual. A egolatria, auto-indulgência, egoísmo, vida dupla, hipocrisia e outros comportamentos decadentes estão presentes na história, bem como os conhecemos, hoje expostos e impulsionados pelas redes sociais, e infelizmente que parecem tão corriqueiros.

Os epigramas polêmicos do Henry (que me davam raiva), podem parecer concretos ou ironicamente engraçados em um primeiro momento, dado o impacto da frase de efeito, porém, temos que ter um cuidado especial com o poder da palavra, com as ideias e influências, pois podemos nos tornar insensíveis e céticos, e a natureza humana precisa de pouquíssimo para despertar e desenvolver seu pior lado.

Se você não tiver muita paciência para a pesquisa, procure pela edição anotada e não censurada da Editora Biblioteca Azul: CLIQUE AQUI PARA CONHECER.

  • Alessandra Tapias

    Incrível!
    Eu amo este livro! Adoro o autor!! E gostei demais das suas impressões acerca do livro!

    Bjksssss

  • Helanaohara

    Oi, já ouvi falar muitas vezes desse livro, Dorian Gray é um clássico!
    Nunca li o livro pois achar que ele seria um pouco complicado pra mim. Essa edição em especial não seria legal, já que não tem nota de rodapé para me cituar hehehe
    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

    • Procure a outra edição, mas não deixe de ler! 🙂

  • Catrine Vieira

    OOi!
    Mesmo com o livro chamando minha atenção em alguns pontos, como a crítica social, a obra em si não me interessa muito. Não sei se leria, parece ser algo difícil de ler. Talvez até seja coisa do momento, então, por agora não leria.
    Ótima resenha!
    Beijoos!

  • Carla A.

    Oi, Raquel!
    Tenho esse livro há anos e nunca li, acredita?! Acontece muito isso que você falou, às vezes a gente lê um livro quando ainda não tem maturidade suficiente (não só em relação a idade, mas maturidade como leitor mesmo) e uma segunda leitura, em outro momento, acaba despertando outras sensações e opiniões. Sempre tive a sensação de que ele era um livro mais complexo mesmo, e sua resenha me mostrou que estava certa. Já sei que preciso ler em um momento tranquilo, sem pressa. E acho impressionante como alguns clássicos continuam tão atuais, tratando de temas que ainda são super relevantes nos dias de hoje.

    Beijos, Entre Aspas

    • Exatamente.
      Releitura são interessantes e até importantes. Creio que se eu ler esse livro daqui a mais alguns anos, novas cortinas se abrirão. 🙂

  • Aline Belloni

    Reler um livro após algum tempo sempre faz com que vejamos o que não tínhamos visto. Eu mesma reli uma obra da minha infância e me surpreendi com as mensagens trazidas nela – um tanto atuais.

    Em relação a resenha, achei ela perfeita e só pela sinopse, a obra me chamou atenção – mesmo o valor da obra sendo um tanto alta. Mas acho que como você, sentiria raiva em relação as palavras de menosprezo dele em relação as mulheres.

  • Kris Oliveira

    Oi tudo bem,
    Acredita que eu nunca li O Retrato de Dorin Gray, vergonhoso, eu sei. O pior é que eu tenho o livro na estante, só vivo enrolando pra começar, mas ele tá na minha meta desse ano.
    Acho que o que mais me afastou da obra foi eu achar que a escrita seria mais lenta, mas espero conseguir fazer a leitura esse ano. Gostei muito de ver o seu ponto de vista sobre a obra, é algo interessante de fazer releituras ver como algumas perspectivas mudam ao longo do tempo e outras nem tanto. Me senti mais inspirada a fazer a leitura.

    • Pois leia, sim! Se fizer resenha, me avisa que quero ver suas opiniões! 😉

  • Kerolayne Silveira

    Oie tudo bem?
    Por incrível que pareca eu nunca li O Retrato de Dorian Gray, sabe não me interessei muito na leitura, não é muito meu gênero favorito de livro. Espera um pouco, não te um filme ou série dele???
    Beijos

    • Tem muitos filmes , pois se trata de um clássico. O mais recente é aquele com o Ben Barnes! 🙂

  • Luan Sampaio

    Oi, tudo bem?
    Que resenha maravilhosa, amei demais! Ainda não tive oportunidade de conhecer essa escrita, mas faz um bom tempo que desejo esta obra! Gostei demais dessa edição da Biblioteca Azul, achei interessante que você deixou totalmente detalhada a sua opinião e isso eu gostei bastante, o que me fez ficar ainda mais curioso a respeito! <3

    Beijos,
    Lu – http://justificou.blogspot.com.br/

  • O que me incomodou foi saber que falta notas de rodapé. Já que estamos falando de um clássico, não é? A editora tinha por obrigação contratar um bom tradutor para saber a importância das notas. No mais, é um livro intrigante. A Pri fez uma postagem bem bacana lá no blog sobre o livro e o filme.
    Faces em Livros.com
    Beijos

%d blogueiros gostam disto: